fevereiro 22, 2006

A saga de Timor/Leste desde 1975


A saga de Timor/Leste desde 1975
Presidente Jorge Sampaio está em Timor, falou ao País e falou às Forças Armadas, especialmente dirigiu-se à Marinha, já que o exército tem estado ausente dos quartéis com queixas sobre os seus vencimentos e as condições menos boas em que se encontram.
Todos nós nos lembramos da saga que foi este acontecimento que levou a um desfecho deveras espectacular e um grande exemplo para o Mundo. Em 1975 eu estava lá em serviço na Corveta, NRP Afonso Cerqueira, fundeados frente a Díli e a ilha do Ataúro. Ainda se “falou em” fazer um encontro das partes opostas, no nosso próprio Navio, mas não se chegou a realizar, havia uma companhia de pára-quedistas na Ilha do Ataúro que nada podiam fazer, entretanto sabia-se que em Díli havia confrontos esporádicos entre as facções oponentes.
Sabia-se que alguns militares e civis portugueses que lá estavam não eram molestados, falava-se até que por vezes os tiroteios paravam para as tropas (poucas) se abastecerem do pouco que já ia havendo. Entretanto chegou outra Corveta, NRP João Roby que tinha a missão de nos render na comissão de serviço que estávamos a fazer. Com algumas tentativas de conciliar as partes que se opunham o tempo ia passando e pelos contactos via rádio que faziam em Díli, estávamos conscientes de que as coisas estavam a extremar-se e nós pouco poderíamos fazer não imaginando ainda que pudesse haver uma invasão por parte da Indonésia, sabíamos que o Governador Lemos Pires estava em Cape Tauwn.
Chegou-se, entretanto o dia previsto para a nossa rendição com o NRP João Roby e lá largamos já todos com vontade de regressar, numa viagem de um mês, mas, cá no íntimo sabíamos que o regresso podia estar comprometido, dadas as circunstancias alarmantes que já se sentiam. Navegamos para Singapura, fizemos uma paragem para abastecer e para a guarnição fazer algumas compras (prendas para as famílias) eu comprei uns Robes típicos daquela terra asiática e muito movimentada e grande.
Meios convencidos ou não se viríamos para casa, vejo num “stand” de jornais em quase todos tinham na primeira página Timor (strike Portuguese Flag) arreia a Bandeira Portuguesa. Foi o mesmo que dizer para nós “regressar a bordo já) a assim foi a ordem era já regressar a Timor.
Mais uns dias passados e tínhamos numa dessas noites uma enorme esquadra de Navios de Guerra em posição de invadir Dili juntamente com tropas a chegar à Capital. Nós (duas Corvetas) estivemos toda a noite em postos de combate aguardando enquanto chegavam as instruções de Lisboa que derem ordem para não atacar pressuposto que seria a ONU a resolver o assunto. (O Presidente Americano era Gerard Ford.)
Foi o que acabou por se conseguir graças aos nossos políticos não se terem calado nunca, não largando as canelas de todas as identidades intervenientes, e o Sr. Ali Alatas. Na ONU continuou sempre Timor como Colónia Portuguesa, o qual eu tive o privilégio de confirmar em 1995. Depois da chacina cometida pela Indonésia na esperança de poder anexar (pensando mais do que tudo no petróleo) um Território que não deixou de lutar através das montanhas. Os nossos políticos foram brilhantes em todo o processo pressionando na parte final através de muitos contactos inclusive para o Presidente Clinton no sentido de travar a carnificina que decorria, levando a houvesse autorização do Presidente Habibe no sentido de autorizar as tropas australianas a entrar em Timor e fazer as tropas Indonésias sair do território ocupado selvaticamente. Esta autorização foi, salvo erro, a 11 de Setembro de 1999 ouvindo eu pela rádio essa notícia, precisamente pelas 12 ou 13 horas. Acompanhei todo este processo com muita emoção, pois tinha presenciado "in loco" como iniciou e nós sem nada podermos fazer. Alguns dos
Grandes dos fortes intervenientes em todo o processo e especialmente no final. Presidente J.Sampaio (que está lá hoje) Jaime Gama, Durão Barroso, António Guterres etc.
Obrigado a todos.
Foi e é um exemplo para o Mundo.

A. Eduardo Moreira

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