novembro 02, 2005

TRIGO LOIRO - Escolástica Cordeiro


TRIGO LOIRO

Está loiro o trigo que em mim semeaste,
Não há conjugação que em mim me baste,
Não um verbo, uma frase, um texto,
Que não me sirva logo de pretexto
Para louvar, Amor o que há em ti:
Os veios de ouro que depreendi
Da tua alma, do teu corpo…os pulsos
Fazem que acorde, no meu corpo, impulsos
E uma vontade louca de beijá-los,
Os braços estender, arregaça-los
Para fruir, da tua pele, o toque!
Se não houver um Deus a quem invoque,
Hei-de inventá-lo, rezar-lhe poesias,
Contar-lhe as coisas que tu me dizias;
Melhor ainda, as que me dizes,
Quando me afloram velhas cicatrizes.

Está loiro o trigo, por demais maduro
Podes acreditar, eu te asseguro
Que as hastes pendem ao peso dos bagos.
Os juros do terreno mais que pagos;
Não te inquietes, eu já contratei
Toda a mão-de-obra providenciei
Toda a recolha o celeiro, a palha,
Pois anda por aí muita canalha
Aproveitando distracções, desleixos
Arremessando pedregulhos, seixos
A todas as razões em que acredito;
A minha voz transforma-se em grito,
Cantando um hino novo esmago o medo,
Com a coronha do nosso segredo…
Ai a fértil manhã que vem chegando,
O enigma da luz anunciandos!

Está loiro o trigo, algo se rebenta,
A intimidade dissolve a placenta,
As tuas coxas são hospitaleiras
Na conversão do cardo em roseiras.
Imponderavelmente se arredonda
O gesto, no arado que me monda;
Há estalitos de giestas brancas,
Quando me cinges, me contrais as ancas!

- Não me esqueci que falo de trigo!
Nunca se sabe meu Amor, contigo
Se tu escutas e se estás atento
Às coisas que te digo, quando invento
Murmúrios na penumbra, recolhida
Como se fosse a Terra Prometida!
…És a colheita! Em ti me dilato,
Tu és o chão, onde estou, de facto!

MorbidMan

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